AGRADECIMENTOS (OU TODOS OS OMBROS)


Dedico, com gosto e satisfação, este exercício de autoconhecimento, à mulher que me desvendou mais facilmente e, desse modo, me ajudou tanto a desbravar a mim mesmo, Lourdes Xavier, mãe de coração e eterna mentora, a quem o título de mestre calharia tão melhor, justamente por nunca ter feito questão de título algum.



AGRADECIMENTOS OU TODOS OS OMBROS

Tem-me ficado cada vez mais nítida, à medida que sigo avançando com meus passos, depois de passar a precisar de outros meios para encontrar meus caminhos, esta confortável transição do papel que o ombro cumpre na relação entre nós, humanos sempre necessitados, quer admitamos ou não, da companhia uns dos outros. O lugar do choro e do desabafo do amigo, o pedestal para os queixos entre abraços que se ancoram, enfim, o canto a que eu recorria sempre que precisava parar, então, passou desse templo do amparo estático para o ponto de partida de indispensáveis movimentos. A minha mão, antes pendida, recorre, agora, ao espaço do sossego para me abrir caminhos guiados com a boa vontade dos olhos alheios. Os ombros, tão negligenciados, tornaram-se faróis para a vista apagada. Não se perder, eis o medo que apavora dentro do escuro imposto. Na superfície dos ombros, os caminhos ocultos se fazem desbravar, porque andar junto parece acender, na dimensão do próprio ato, uma chama sem incêndio capaz de gravar a fogo , mesmo na superfície de retinas desbotadas, os trajetos que desbravamos a partir deste contato, tão necessário e simples, entre alguém que precisa e alguém que pode. Porque ambos querem. Querer o próximo passo é a melhor qualidade dos ombros que me guiam.

Agradeço, em primeiro lugar, assim, àqueles cujos modelos serviram para forjar meus próprios ombros. Do útero dela aos braços dele, passei por muitos caminhos desde que meus pais, Francinete e Severino, começaram a me puxar pela mão, mesmo antes de desconfiarem da minha futura necessidade de ombros. Principalmente, pela crença de que eu podia mais e, depois, por não deixarem-se abater e por terem se permitido convencer que eu também não precisava deixar de poder mais, mesmo sem enxergar, eles estiveram comigo em cada lágrima derramada e cada sopro, de desilusão ou esperança, a cada surpresa entre um exame oftalmológico e uma prova de admissão, lendo a bula do colírio e o formulário da inscrição, me acompanharam, como quem diz: vai à frente, que te empurramos, filho. Acostumado que fiquei a estar ligeiramente atrás de quem me acompanha, agora, preciso me lembrar sempre da simples lição que eles me ensinaram, inconscientemente, porque cuidar é teorizar sem palavras: “você precisa continuar, pois teu caminho também é o nosso”.

Depois deles, ao ombro mais parecido com o meu, pelas constantes caronas, mesmo diante da falta de tempo ou paciência, em face da pressa ou do ócio, agradeço ao meu irmão mais novo, Sidelan Andrade, porque saber conduzir e sair do próprio percurso em benefício do caminho alheio não é para todos, apressados que nos acostumamos a ser, querendo muito chegar o mais rápido possível a metas invisíveis, sem ao menos perceber quem estamos a atravessar no meio de tantas rotas inadiáveis, aparentemente inadiáveis.

Aos queridos amigos de antes da minha necessidade de ombros, Samelly Xavier e Anderson marcos, ambos tão crentes em mim. Muitas vezes, mais crentes do que eu mesmo. Agradeço-lhes por terem aparecido ainda a tempo de que eu lhes desvendasse os sorrisos e franzir das sobrancelhas, mas principalmente agradeço-lhes por terem permanecido até hoje, figuras muito presentes não só na minha memória visual, mas na minha trajetória acadêmica. Conheci-os por conta das duas graduações nas quais me aventurei e, cada um a seu modo, me trouxe até aqui, mostrando direções e indicando caminhos, sem sequer eu precisar encostar em seus ombros. Mesmo assim, quando puderam, estenderam-me também estes mesmos ombros já avistados por mim antes, me revelando, assim, que olhar e tocar pertencem a dimensões completamente diferentes e que, portanto, apenas enxergar os fatos nunca será suficiente para esgotar a potencia dos fatos.

Desses dois, afinal, cheguei aos tantos outros colegas de ofício que me marcaram no mestrado. Aqui pude divisar muitas teorias e aprender a enxergar sem olhos. Agradeço, então, àqueles cujas vozes me permitiram desenvolver o novo olhar que precisava ao me aventurar neste programa. Em primeiro lugar, por ter aceito o desafio de acompanhar, às cegas, uma pesquisa tão imprevisível, pelos apontamentos sempre certeiros e objetivos que me ajudavam a ser menos abstrato (essa mania que não perco, nem de olhos fechados), agradeço ao meu orientador, Luciano Barbosa Justino, com o desejo de ter conseguido absorver do convívio acadêmico a sua habilidade com nossos objetos de estudo. Depois, àquela que, aparentemente, mais ternamente me compreendeu, seja no que escrevo, seja no que faço, e mesmo naquilo que cuspo sem filtros, pedindo desculpas por tê-la ofendido na primeira vez que nos reunimos depois da aula, numa conversa informal entre estranhos que gostavam das mesmas coisas, ainda que eu saiba da desnecessidade das desculpas, pois sua qualidade mais admirável para mim é a afetividade desafetada e sem melindres, agradeço a Elisa Mariana, jovial e inquieta, querendo muito imitar sua mania de nunca parar.

Agradeço também à mulher que começou tudo isso em Elisa, sua mãe e nossa tão amável professora, Geralda Medeiros, pelo carinho com que envolve a literatura dentro dos corações aflitos dos estudantes, nutrindo, eu, a vontade imensa de, quem sabe um dia, ser capaz de guardar comigo ternura o suficiente para encantar um departamento inteiro, como ela tão espontaneamente faz. Pelos bombons, biscoitinhos, bolos e mimos da efusiva Zuleide Duarte, estes que vinham sempre recheados com bastante exuberância e bagagem literária, agradeço-lhe pelo calor com que me teve em suas aulas, e espero, ao cabo de mais ou menos duzentos anos, ter conseguido ler metade de tudo o que ela já leu. Por fim, imensa gratidão ao brilho tão intenso dos olhos de Diógenes Maciel, cuja competência me inspira e cuja paixão pela arte me fez, muitas vezes, revigorar meu ânimo, este que não poucas vezes arrefeceu diante da dúvida e da insegurança no período delicado em que me aventurei com este mestrado; ainda, reitero, não vou esquecer das conversas que tivemos sobre meu objeto de estudo e de como aquele brilho de seus olhos conseguiu ofuscar a minha apatia de estar tratando com teorias essas coisas que, em mim, apareceram na prática e sem anúncios; agradeço-lhe, enfim, por ter me mostrado na pele, entre textos e cafés, que, enxergando ou não, precisamos sempre ter, como disse Pessoa pela boca de Caeiro, “o pasmo que tem uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras”.

É que, a propósito, não me faltaram pasmos. Quanto aos companheiros de estudo, em primeiro lugar preciso agradecer ao primeiro mestrando com quem tive o privilégio de cruzar, na primeira aula do primeiro semestre, durante a primeira vez que eu saía de casa sozinho depois de ter perdido a visão; ao meu lado, Fábio de Lima mal desconfiava que eu sentia, ali naquela carteira, a exata sensação que meu eu de cinco anos de idade provavelmente sentira ao ser deixado na escolinha, sozinho, para valer-se -se de si mesmo, pela primeiríssima vez. Desamparado, o meu receio, na ingenuidade de quem ainda está para descobrir como agir fora de casa depois de adulto transformado, era a assinatura na lista de presença que seria ali passada; ao chegar a minha vez, caneta na mão, papel em branco inatingível à minha frente, Fábio entendeu e ofereceu não o ombro, mas a mão que me indicaria o primeiro traço desenhado por conta própria, eu sem família ou amigos que soubessem de mim a priori; Fábio, sem querer nem pretender, me ensinou que pedir ajuda não fere, tanto quanto ajudar não incomoda e, mais ainda, que esclarecer sempre é mais fácil do que se envergonhar; assim, o primeiro gesto de amizade que consegui extrair de um estranho lhe pertence; por condensar em si tantos primeiros, dificilmente esquecerei de Fábio, voz ‘mansa, inteligência plácida e, me disseram, olhos azuis cujo claro transparece até para quem quase se esqueceu do tom que o azul tem.

Depois me acalmei e conheci os demais, me afeiçoei e descobri pessoas interessantíssimas, sem precisar de uma imagem que as determinasse. Apesar da turma inteira ter me tocado de alguma forma, uns mais do que outros, como sempre, se destacam, por terem deixado a marca de seus ombros sobre os meus. Agradeço ao ombro ao mesmo tempo casto e profano de Andreia Luiza, que me guiava tímida e sem hesitações. Agradeço ao ombro desbravador e enigmático de José Júnior, que me guiava meio querendo ser guiado também, satisfeito que estou de ver ele tendo achado seu próprio caminho. Agradeço ao ombro, aliás, ao cotovelo de Huerto Luna, alto demais pra me guiar, mas que o fazia com elegância e leveza. Agradeço ao ombro carnavalesco de Abisague Cavalcante, a não se contentar com a mão apenas e exigindo me guiar por meio do melhor abraço condutor já avistado por aqueles corredores.

Mas, em especial, agradeço muito ao ombro que mais me acompanhou, entendeu e conduziu desde que resolvi dar início a esta pós-graduação. O ombro que me encontrou meio por acaso, no dia da prova de proficiência em língua estrangeira, porque a prova anterior eu precisara fazer em sala separada dos demais candidatos. Aquela ligeira e amarga sensação de isolamento, então, foi Waldívia Oliveira quem dissipou, do jeito que ela sabe fazer muito bem, cheia de gestos e modos, ondas e curvas, como uma encantadora de serpentes que conseguiu, com seus movimentos, convencer mesmo quem não pode vê-los. Agradeço pelas noites de desabafos e pelas manhãs de fofocas, por ter me apresentado à criança mais fascinante que conheci nos últimos anos, seu filho, Arthur Wallace, em quem me vejo refletido, como num espelho em retrospecto. Por ter me acompanhado, ombro a ombro, nas mesmas dúvidas e aflições acadêmicas, e até por ter dividido comigo o mesmo orientador, porque, assim, acabamos formando um time muito empenhado em não perder jogando em casa. Pelos chás e biscoitos, almoços e jantares, pelos telefonemas e mensagens de voz, pelos olhos que me acudiram tantas vezes mostrando-me a frase que não fazia sentido ou a pontuação fora do lugar. Pela amiga que se tornou, por ter transcendido a minha necessidade de ombros, Waldívia sempre ocupará um lugar cativo dentro dessas minhas memórias à meia luz.

Mas não só da turma com quem dei entrada vivi esse percurso. Encantadores efeitos colaterais me saltaram do convívio com o programa durante estes pouco mais de dois anos. O primeiro deles, ombro ao qual eu já havia me afeiçoado, aliás, antes do mestrado, pois, afinal, o mundo é pequeno demais para querermos evitar certos reencontros, foi Duílio Cunha, que se apresentara a mim por meio do querido Anderson Marcos e que, tão querido também, coincidiu de estar ali no lugar certo, na hora certa; porque quis me ensinar o ritmo teatral nos degraus das escadas, para que eu não rolasse de cômoda conveniência pelas rampas, e porque, quase como outro irmão, também me deu preciosas caronas, encurtando o caminho irregular entre minha casa e a universidade, agradeço-lhe, na expectativa da próxima vez em que a vida nos fará coincidir novamente Segundo, ao efeito colateral mais inspirador do qual eu poderia ser acometido, agradeço ao melhor bibliotecário das nuvens que eu poderia desejar, Carlos Adriano, pelos valiosíssimos (e numerosos) conselhos, indicações e livros que me deu, pelo tamanho que esta dissertação tomou graças a tão valiosa fonte de pesquisa, por ser o culpado de eu querer falar em prol do livro digital sem esquecer que o papel também tem seu hype pós-moderno, por me despertar a sensatez de não adotar maniqueísmos ou binarismos fúteis, por transbordar inteligência e carisma sem, no entanto, cair na vulgaridade dos preciosismos e, assim, se mostrar para mim como um ombro igual ao qual eu queria tanto ser quando crescer.

Por fim, como aparecendo de repente e, igualmente de repente, decreta que permanecerá, o terceiro efeito colateral está sobre os ombros de Adelino Silva, cuja doçura me desperta certa necessidade de revigorar a fé nas pessoas, agradeço-lhe pelo esforço calmo e insistente com que faz tudo o que se propõe a fazer, pelo empenho em estreitar os laços que julga importantes, por reavivar em mim uma inocência perdida, por me fazer enxergar a diferença entre inocência e ingenuidade, pelo ombro que sempre chega quando eu mais preciso, pela paciência perdida e reencontrada nele, pela sutileza nas palavras que, obviamente, esqueci e, aparentemente, custarei a recuperar, por ser, afinal, para mim, olhando-o do meu modo meio embaçado e sombrio, o desenho possível, ainda que em seu primeiro rascunho, daquela frase de efeito que eu preciso tanto interiorizar: “há que endurecer, mas sem perder a ternura”.

Aparentemente, ao meu redor, tudo girou de modo a me circunscrever dentro de uma atmosfera propícia. No meio do caminho, entre um semestre e outro, acabei conhecendo a minha melhor companhia. Sem nada pretender, esbarramo-nos, porque eu sou distraído demais e ele, sem alguém que lhe indique a direção, se perde fácil. Mas não se abandona. Nem larga de mão. Esbarrou mas, no tempo da colisão, decidiu que ficaria, pediu pra ficar e ficou. Agradeço, logo e muito, a Wallace Fernandes, porque depois que eu lhe disse da minha necessidade de ombros, não se contentou e me ofereceu a própria mão. Pelo companheirismo que me dedica, por me permitir dedicar tão belo companheirismo também. Por não me entender sempre, mas, ainda assim, achar que entender não é tão determinante assim. Pela presença que instaurou nos meus turnos, do bom dia ao boa noite, Por ter me dado um pôr do sol inédito, me incluindo em uma paisagem inalcançável, mas a alcancei porque sentir vem de dentro e não pressupõe o funcionamento perfeito de um órgão imperfeito e falível. Pelo senso de humor que alegra meus não tão raros dias de cansaço, por escutar, sem tédio ou impaciência, as inevitáveis reclamações de alguém que convive com um desafio constante impossível de ser revertido, por acolher as lágrimas de meus olhos vazios e por enchê-los também, com seu modo peculiar de me fazer sentir acolhido. Pela amizade e cumplicidade que estão acima dos contratos e, melhor ainda, por este fato ter se dado espontaneamente, sem audiências ou testemunhas. Por ser a testemunha ocular daquilo que meus olhos não alcançam e por me estimular sempre para que eu alcance o que puder, com ou sem visão.

Muitos caminhos me trouxeram até aqui, e eu não poderia esquecer dos primeiros passos que dei, ainda inconscientemente, em direção aonde agora me encontro. Preciosos contatos fiz, durante aquele período suspenso em que ficamos, quando passamos por mudanças tão bruscas e a vida nos força a reajustar nossos modos e propósitos. Tateando muito, aprendendo solitário, mas nunca sozinho, acabei encontrando, não nos ombros, mas  nas vozes dos queridos amigos involuntários, Fernando Scalabrini, Renata Fonseca, Ricardo de Melo, Ricardo Cheruti e Sonny Pólito, componentes da equipe atual do Podcast “Papo Acessível” (www.papoacessível.com.br), além de Ana Gouvêa e Alexandre Costa, que dela já fizeram parte e agora ocupam outros espaços virtuais; enfim, este grupo de pessoas cujas experiências, tão próximas da minha, fizeram-nos querer compartilhar tantos conhecimentos e vivências novas. Posso afirmar, inclusive, que eles todos, unidos no propósito de divulgar e difundir maneiras novas de acessar e consumir tanta informação disponível a quem tiver olhos ou não para ver, foram em grande parte os responsáveis pela pesquisa aqui desenvolvida, uma vez que, a partir dos episódios do seu Podcast, produzidos desde 2012, coincidentemente o mesmo período em que passei a precisar realmente das tecnologias assistivas, enfim, por meio do conteúdo que eles disponibilizaram e ainda disponibilizam, gratuitamente e com tanta competência, eu pude começar a aprender boa parte daquilo que precisei pôr em prática para efetivar o texto e a investigação pretendidos com meu projeto, além do que, pelas suas vozes ecoando em minha então mente abandonada, pude entender, pela primeira vez e à distância, que eu não estava nem precisaria estar sozinho para me adaptar à esta condição tão desnorteante. Assim, ao Papo Acessível, mais do que agradecer, devo-lhes o fato de me ter sentido capaz o suficiente para concluir um mestrado cujo projeto leva em conta duas áreas para mim tão caras: a literatura e as tecnologias da informação acessíveis.

Por falar em aprender, termino agradecendo a toda a equipe do Instituto de Assistência e Educação aos Cegos do Nordeste, aqui de Campina Grande, expressa nas pessoas de Adenize Queiroz e John Queiroz, por terem visto naquele “recém-cegado” garoto pasmado que bateu à sua porta o potencial de fazer alguma diferença, depois de tanta coisa aprendida por conta própria. Suponho que certa aura do espanto fuja aos olhos experientes de quem já há muito aprendeu a enxergar, sem luz, por trás dos medos daqueles a quem ajudam. Aos diretores do instituto, assim, agradeço pela oportunidade dada de aprender tão mais do que eu já sabia, a partir do convívio diário e próximo com meus iguais; além de ter podido me tornar, eu mesmo, um ombro a guiar outros ombros. E mais, sinto-me pleno de gratidão pela gostosa sensação de descobrir com eles todos, alunos, professores e funcionários do Instituto, videntes ou cegos, que aprender junto sempre será o jeito mais eficaz para transcender a nós mesmos e nossas limitações.

Retrospectiva Crônica 2013

SIMONE
“Vítima da inocência de seus filhos, da insegurança de seu marido e da própria indecisão, Simone finge.”

DA NECESSIDADE DAS PORTAS (2)
“portanto não posso trancar a porta, logo, estou incapacitado de enxergar a preciosidade do que existe dentro do meu quarto. Daí calcula-se o incômodo: afinal de contas, de tudo o que existe dentro do meu quarto, a coisa que mais existe sou eu. Sem a porta nem a chave da porta, eu fiquei desvalorizado.”

QUANDO EU NÃO TIVE PRESSA
“Mastigo os pedaços, engulo a densos goles, me saboreio. Morna, a brisa arranha meus olhos através da janela. Assim como um passado no encardido da térmica branca, há um futuro impresso no céu alaranjado. Sovando a massa entre os dentes, saliva e leite manchado, o futuro não me assusta, tão inédito meu domingo.”

ENTRE NÓS E A GENTE
“Só que passou o tempo e a fibra óptica. Chegou a era das senhas, e ninguém se decifra. Então, eu que nunca fui nós, pulei logo para ser a gente. A gente era criança e brincava no plural. Nós ficamos adultos e solitários, brincando de ser global, com a vida em cristal líquido escorrendo por entre nossos dedos. Os dedos da gente”

CONFISSÕES DE UM CEGO
“Lembro-me que, quando criança, pesado de lentes tão grossas diante de meus olhos, eu fingia ser cego, só pra ver quanto tempo  eu sustentaria sem enxergar as coisas ao meu redor. Era divertido porque eu sabia que depois  bastava desamarrar a venda. O que eu não sabia era que aquilo se tratava de um treinamento.”

LOUÇA SUJA (2)
“Ou não, não esconder-se. Mas redimir-se. O que dá muito trabalho e requer bastante cuidado e leveza e mãos delicadas e pouca pressa, para não nos partirmos ao meio. Eu sempre quis a coragem de não me arrepender.”

DE REPENTE, SORVETE
“O que tampouco ninguém podia ver era toda a carga anterior armazenada naquele recipiente, que eu ia desovando, colherada a colherada, carente e deprimido mesmo, descontando a frustração numa guloseima, engordando por pura culpa de não sentir culpa nenhuma de estar 10kg acima do peso.”

SOBRE MORANGOS E OUTRAS MIRAGENS
“Do mesmo modo, pela facilidade com que as palavras foram ditas, posteriormente, também já duvidei dessa coisa que é vermelha feito morangos maduros. Da boca carnuda, a fruta fresca em promoção. Recusei, porque... Por quê? Não sei. Ou sei e não me contei. Acho que preciso encontrar  outro livro que me acuse.”

A CHUVA DE JUNHO
“Será possível que, no escuro, os dois segurados pelas mãos, não precisem olhar, nem desconfiar, que a passagem é larga, mas se afunila  no fim. Será possível não se assustar com o fim estreito, porque dar passagem também é estar junto, ainda que solto por alguns instantes, longos ou breves, quase sempre longos, já que o tempo relativo se estica tanto quando o espaço se alastra entre os corpos.”

LABIRÍNTICO
“De vez em quando, se arrepender, tentar voltar, complicar mais o nó que a jornada deu, sem sequer sermos capazes de prever, pois tínhamos achado, sem hesitar, que o melhor seria não deixar a oportunidade passar, pois todo mundo nos cobra muito a leveza de espírito de não desperdiçar portas abertas e a proatividade de abrir janelas, se porventura não houver aberturas já feitas. Mas, então, de que adiantará essa sangria desatada – sem fio-guia pra laçar as veias que escorrem deixando rastros enormes pelo chão...”

LOURDES
“Se fosse ela aqui falando, já teria mandado vocês todos arrumarem coisa melhor pra fazer, do que ficar até agora perdendo tempo com um monte de palavra solta. Que a gente se define pelo que faz, não pelo que diz. Que falar muito pode pôr a perder um dia inteiro de luta. Que quando a barriga reclama e o frio bate, não é um texto que vai alimentar ou aquecer, porque palavra bonita a gente tem de monte, é só abrir um dicionário.”
QUANDO EU NÃO ME TOQUEI QUE ALGO NÃO ME TOCOU
“Mais grave. Um passarinho decolou, ligeiro. Mamãe, com esse pasmo que ela tem de enxergar as coisas velhas com ares de novidade aprendiz, suspirou, num sobressalto. Disse-me então, quebrando o gelo da noite superada e o frio silêncio da espera: ‘Eu queria voar’.”

PALAVRA-CHAVE
“De novo, a frustração da redundância: até agora, nada de novo saiu novamente. Então, conversar não passa de um exercício dramatúrgico , treinar as falas que você dirá diariamente, sempre que a luz se acender. Ator de si mesmo, você quer um papel novo. Plateia do outro, você gostaria de um feedback no qual eles não são capazes de pensar.”

MARINA
“Se me lembro, sorrio um pouco contrafeito, porque ela me saiu mais bonita do que eu pretendia. Se eu tento e não consigo me lembrar, dou aquele estalinho com os lábios, como quem se desaponta. O problema é que Marina nunca prometeu nada a ninguém. De tão aérea, ela nem conseguia ser vocal. O beijo de Marina era sopro, liso, sem vibração. O beijo de Marina era puro silêncio entre os lábios ofegantes.”

CONFISSÕES DE UM CEGO (2)
“Também confesso que estou muito mais à flor da pele. Confesso ainda que sou meio covarde. Me aproveito do escuro entre os colegas de sala pra chorar, mudo, de impotência pela imprevisibilidade de meu cotidiano, entre um gole de café e outro, no refeitório, durante os intervalos. Me aproveito do escuro das lentes dos meus óculos, porque as cozinheiras enxergam. Eu finjo que elas não percebem, pra suportar o peso da minha lágrima oculta. Elas fingem que não percebem, porque já devem estar acostumadas a lidar com a lágrima dos olhos vazios alheios.”

MAIS UMA VEZ
“Novamente, a liberdade que me assombra tanto. Nós queremos voar, eu quero não cair, porque sei que, facilmente, não teria força de vontade para resistir a um brilho muito encantador que destruiria minhas asas. Eu quero não poder voar, mas eu criei asas e agora é tarde demais. De vez em quando, os dons com os quais não sei lidar, dos quais desconfio não fazer jus, os quais suspeito não merecer nem ter, os dons que me são dados sem eu ter pedido, outra vez, me sobressaltam.”

CINCO CRIANÇAS
“Bem, mas então eu precisava fazer parte do tempo e, não me lembro se por opção ou acaso, calhei justamente no número cinco. É que um número consegue dizer muita coisa, sem usar uma palavra sequer; suponho que tenha começado aí essa minha vontade frustrada de adulto... Ser mais condensado, menos pulverizado nas tantas palavras que agora sopro.”

SOBRE VAGALUMES E ESTRELAS
“Uma estrela, dizem os que estudaram, é um corpo luminoso incandescente, imensamente incandescente. Revela um planeta inteiro enquanto queima o melhor de si. Ser uma estrela exige um vigor afetuoso, não dá pra iluminar sem se consumir. Nós somos um pouco estrela, se bem me lembro, porque já ouvi dizer que, enquanto respiramos, o mesmo oxigênio que alimenta a célula é o que a consome em calor. Respirar é a dor que nos permite sobreviver. Só que não emitimos luz própria, alguns menos ainda, outros até sugam a luz alheia... Uma estrela é o cúmulo da respiração.”

FLUXO INTERMITENTE
“...já fazia tanto tempo da rotina abortada de tomar condução cheia diariamente, que você até fica feliz, algo voltou ao normal, porque você ainda não se acostumou com o novo normal, os novos normais são as normalidades mais rejeitadas, você tem a tendência de querer o velho sempre, por puro saudosismo e insegurança e medo de não conseguir ser outro, mesmo tendo já sido tantos, que a velha normalidade não precisa de abertura de mente ou leveza de espírito...”

CONFISSÕES DE UM CEGO (3)
“Eu acho que sofro de necessidade de ombros. Eu acho que a gente queria mesmo estar sempre ao alcance do toque de um ombro que nos leve. Eu acho que o toque foi muito mal interpretado ao longo das eras. Eu acho que a pele foi subvertida e, agora, só insistem em atribuir a ela um papel meramente erótico. Eu acho que dá pra enxergar o outro pela textura da pele, sem que isso seja, necessariamente, uma proposta indecente. Afinal, que indecência é essa de querer conhecer as linhas escritas no outro?”

LOUÇA SUJA (3)
“Se eu não fosse tão monótono, eu pararia de lavar a minha louça suja em público assim, tentando disfarçar com limpos termos o que é ora inquietação ora insatisfação. Ou apenas constante vazio dos que saem e dos que não entram. é que eu também já percebi que, se não falo, o bocejo doce vira mau hálito de boca fechada por tempo demais.”

DA NECESSIDADE DAS PORTAS (3)
A porta entreaberta é como um livro cujo dono não lhe aceita como experiência do vivido, mas como mero objeto de decoração. Não existe maior insulto à uma porta do que acusá-la de ser meramente adorno sob o vão. No vão da porta, uma porta de enfeite é também em vão.”

Saturação



Já deu, né? Chega dezembro e parece que temos de vencer, todo de novo, em um único mês, o ano que está insistindo em não partir. Do meio pro fim, então... Gente, como duas semanas conseguem durar tanto? Fora essa contradição eterna de feriado: estética invernal europeia em plenos trópicos. Dá uma crise na gente... Essa mistura de calor e chuva, verão e frio, sol e neve de isopor, rebolindo tudo por dentro, alegria flutuando solta no ar seco, como floco de gelo, tão Fugidio, que se perdeu e veio parar no hemisfério errado, na hora errada, mas pelos motivos mais bem-intencionados. Essa coisa que não se deixa divisar, ora reluzente, como o sorriso do amigo, ora brilho de neon melancólico de uma lágrima mal derramada por outro - gelo seco que derreteu-se. Tempo de mistura e de coisa densa, flutuando resistente sobre a superfície, feito um óleo muito espesso que quer penetrar no sentimento liquido das horas finais. Festejar, festejar. Despedir-se, e voltar ao topo. Dá um cansaço, às vezes. Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, como se os quinze últimos dias fossem a cópia condensada dos trezentos e cinquenta anteriores. Olha, haja coração. E haja cabeça também... de repente a gente se pega revisando tudo, como num assomo de morte. Ah, sim, isso mesmo: sempre tive essa ligeira sensação de morbidez convencionada em dezembro. Sem falar no masoquismo de se descobrir tão volúvel em espaço de tempo tão restrito. Quem diria que, o que um dia fora falta, tornar-se-ia excesso... quem diria que o que a gente começou querendo, terminaria por nos enjeitar... quem diria que, mesmo assim, a gente ainda tenta planejar tudo pro novo imprevisível dividido em doze prestações. Tá, sei, é muito dramático falar assim. Há anos bons, há meses bons, há semanas ligeiras e dias produtivos... há o ócio do sol ao meio-dia, há o ácido das pilhas dos relógios. O que não há é a Constancia, essa pretensa Constancia pregada na parede. O tempo passa numa velocidade constante de sessenta minutos por hora. Mesmo assim, quanta oscilação. Eu, quem era? E o outro? E eu, que era outro, hoje sou o outro que meu eu não conseguia ser. Isso tudo e seu contador pessoal só avançou um dígito. Um mísero dígito dentro de tanta coisa, tantas vidas entre uma vela e outra. Que a gente sopra e sopra, pra ver se não perde o fôlego. Nem o pique, porque haja preparo para tanta maratona. é gente que chega, gente que parte. Gente que nem vemos passar, gente que passa e fica, que tenta pacificar, mas atribula. Gente que a gente ama pra sempre durante dois meses. Gente que a gente detesta sem nunca ter conversado. Amores eternos e paixões relâmpagos no mesmo lapso cronológico. E você envelhecendo bem pouquinho, que é pra não gastar tudo de uma vez. E a gente gasta o que ama sem perceber, torrando paixões sob as folhas secas que caem. Você se ilude, achando que agora, vai tudo correr fluído. Vem mais gente te tirar do conforto de não se descobrir cego ou lento demais ou muito infantil. Em fevereiro você ferve e não há quem segure a exuberância da jovialidade exacerbada. Chega junho e você prefere a calma de um amor devagar, porque descobre, entre chuvas e quentões, que gente apaixonada fica cega e cheia de certezas frágeis, como numa adolescência. Mas o amor lento não chega até novembro, e, mais uma vez, noutra primavera, as flores se esfregam na sua cara, como presentes que você não receberá. Só que houve o bom da vida nas férias, a viagem ao exterior, pra mudar de estação sem precisar esperar três meses. Houve a mudança de ares, de Marte a Vênus, num ciclo, De Afrodite ao deus da guerra, num piscar de olhos revolvendo entre suas órbitas malucas, inesperadas. Houve o tumulto de vencer, dia após dia, as pequenas mortes triviais. E você, bravamente, sobrevivendo tudo de novo, beijos e abraços e carinhos sem ter fim, ao entregar o presentinho comprado meio que de má vontade, mas esperando um grande regalo em retribuição. Esquecendo-se, momentaneamente, de que, daqui a um minuto, um mísero minuto, você vai ter que trocar o calendário e a agenda e o cronograma e planejar tudo de novo, pra tudo de novo ir sendo desplanejado à medida que o tempo vai se repassando. Porque viver é de improviso e um minuto, vale sempre repetir, pode mudar uma vida inteira. E muda todas ao mesmo tempo. E, ao mesmo tempo que tudo muda, todos mudos, tudo continua igual e barulhento. Porque a gente não consegue aguentar calado a ideia de que, sempre e sempre, voltas sem fim, estamos girando e não ficamos tontos porque a tontura é o estado natural de passar o tempo. Que se o planeta, de súbito parasse, a gente ia ficar zonzo por falta de movimento e tudo desabaria num infinito sem prazo limite. E calma que só faltam trinta segundos, presta atenção nessa contagem regressiva, porque ela se repetirá enquanto houver combinações de dígitos possíveis, mas a gente inventa que é mais importante dessa vez, porque só dessa vez é que ela se está contando no agora. E, de repente, tudo perde meio que a importância, até tanta coisa pensada de uma vez só, porque você precisa ser melhor daqui a 5... 4... 3... 2... 1... Mas você se distraiu, alguém comeu suas uvas, e as lentilhas estavam muito caras neste ano passado.